segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Quixote de bicicleta


 


Chamado pelos filhos de professor Pardal, porque tantas eram suas engenhocas espalhadas pela casa (a tampa aquecida da privada ou um tobogã dentro da sala, por exemplo), o engenheiro industrial Felício Sadalla sempre acreditou que as cidades seriam muito melhores se fossem criadas ciclovias.
Seria bom para o meio ambiente, já que a bicicleta é um meio de transporte ecologicamente correto, bom para as pessoas, que teriam mais saúde e não perderiam tanto tempo no trânsito, e bom para a cidade, que teria o ar mais limpo e menos engarrafamentos.
Foi pensando nisso que Felício criou e desenvolveu, há 35 anos, em sua própria garagem, uma bicicleta elétrica, com motor ecológico, na qual pedalava 13 quilômetros todos os dias para ir e voltar de casa para o trabalho.
“Eu provavelmente era a única pessoa no país a andar de bicicleta elétrica”, conta.
Mas ele não achava nada extravagante. “É uma simples questão de bom senso.” Para ele, uma bicicleta pesa 20 quilos e carrega sem problemas um ser humano, já um carro pesa uma tonelada. “Nada é tão barato, comparado com rodovias e metrô, do que abrir uma ciclovia.”
A bordo de sua invenção, Felício sentia-se isolado como uma espécie de Quixote urbano. Por isso, ficou emocionado com a notícia recebida, no mês passado, no dia em que completou 81 anos. Sua criação vai começar a circular em São Paulo.  
Uma seguradora (Porto Seguro) que já usava bicicleta para oferecer socorro aos seus segurados soube do modelo desenvolvido por Felício. Decidiu então estudar a possibilidade de produzir a bicicleta dele em série, contratando um escritório de design. Felício deu as dicas sobre o motor, sem qualquer preocupação com patente.
O projeto saiu do papel, e no dia do seu aniversário, Felício recebeu a notícia do início da produção brasileira das bicicletas elétricas com motor ecológico. São as primeiras bicicletas desse tipo desenvolvidas no Brasil.
Se tivéssemos mais gente com essa lucidez, certamente a cidade estaria melhor, menos poluída, e mais sustentável. Não é à toa que Felício chegou aos 81 anos fazendo invenções.

Fonte: Catraca Livre / Folha Online / Terra Viva

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