quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Contra a maré

Pouco investimento fragiliza pesquisas no Brasil para o desenvolvimento de carros elétricos


Marco Charneski/Paraná Online
Para o pesquisador, Brasil não pode perder o bonde da eletrificação de veículos


O Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec), instalado em Curitiba (PR), tem empregado esforços para o Brasil ser protagonista no setor de carros elétricos. A batalha não será fácil, visto que faltam no país incentivos, legislação específica e os investimentos voltados para pesquisa e desenvolvimento (P&D) para essa área são escassos.
“O Brasil pode ser uma das locomotivas desse processo, mas é preciso investir. As pesquisas ainda são embrionárias e não estão suficientemente financiadas. Há uma indefinição no governo quanto a essa questão”, avisa Patricio Impinnisi, pesquisador do laboratório de pilhas e baterias do Lactec.
A queixa não é à-toa. O Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) cobrado hoje no Brasil para esses produtos alcança 25%. Outros países não só isentam de taxas os veículos elétricos, como dão dinheiro para o consumidor que adquire um produto. “Aqui o carro elétrico é taxado cinco vezes mais de que um veículo de combustão interna”, critica.
A resistência do governo em apoiar esse novo padrão tecnológico, na avaliação de Impinnisi, pode ser explicada, em parte, na tentativa de proteger a indústria do etanol, já que estudos apontam que os carros elétricos, além de não poluírem, são três vezes mais eficientes energeticamente do que aos movidos à combustão interna.
“O Brasil não sabe se apoiará veículos elétricos, porque temos que exportar etanol. Entretanto, ninguém comprou o projeto do etanol brasileiro. A Europa e os Estados Unidos já partiram para veículos híbridos. A China foi direto para carros elétricos, e o Brasil acha que o projeto etanol é uma grande sacada e que se investir em veículo elétrico estará dando um tiro no pé. Há uma certa confusão a esse respeito”, diz.
De acordo com ele, se não houver uma mudança de curso, o país pode ficar para trás no desenvolvimento da tecnologia de veículos híbridos e elétricos e ser refém do conhecimento internacional. “Ninguém tem dúvida de que no futuro o transporte será todo elétrico, porque ele é muito mais eficiente. O Brasil ficou autosuficiente em combustíveis fósseis, mas imagina se frota nacional se tornar elétrica? Não teremos tecnologia para isso”, alerta.
O Lactec coordena a Rede de Tecnologias para Veículos Elétricos do Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec), que prevê investimentos da ordem de R$ 10 milhões para cadeia produtiva do setor nos próximos anos. A rede foca questões vinculadas às novas tecnologias, estuda o funcionamento das baterias, acessórios elétricos, eletrônicos e mecânicos do veículo e a autonomia das células de armazenamento de eletricidade dos carros, além de atuar no desenvolvimento de postos de reabastecimento elétrico.
De acordo com especialistas, um dos grandes entraves para a viabilidade dos veículos híbridos e elétricos são justamente as baterias, setor que o instituto mantém dianteira em pesquisa aplicada no país, com mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas sobre armazenadores de energia.
No mês de julho, o Lactec apresentou ao Comitê Técnico do Projeto Veículo Elétrico (VE), um relatório sobre os principais estudos desenvolvidos mundialmente sobre baterias e acumuladores de energia. A intenção é transformar o comparativo em um projeto que aponte soluções para a produção nacional desse tipo de componente.
De acordo com Patricio Impinnisi, com uma procura cada vez maior por sistemas de geração de energia menos poluentes, é imprescindível investir em equipamentos portáteis mais poderosos e com mais funções. “Para utilizar energia eólica e solar, que são fontes intermitentes, é fundamental ter sistemas de armazenamento eficientes”, lembrou.
Entretanto, as baterias não foram desenvolvidas no mesmo nível que outras áreas tecnológicas, isso não só para carros, como também para celulares e notebooks. “Não vamos resolver isso da manhã para noite, muito menos sem investimentos. É um mercado bastante esquecido no Brasil. Não há fiscalização, normatização, não há pesquisa. Nós importamos tudo. E para um país que quer ser uma potência energética, estamos muito distantes”, completa.



FONTE: Akatu

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