terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vacas de presépio ou touros indomáveis?

O segredo de uma boa equipe começa com uma boa seleção de pessoal. Óbvio. Nem tanto. Pelo menos não é isso que se vê na maioria das vezes nas grandes corporações. Desde o “perfil ideal”, traçado pela equipe de Recursos Humanos, até a entrevista final de contratação com o gestor da área, que geralmente está olhando para o próprio umbigo. O mais comum, na grande maioria das vezes, é que o candidato acabe sendo escolhido por representar um senso comum e não por se destacar no meio da multidão. A regra do jogo se chama: “na dúvida, contrate alguém igual a você”. Não precisa ser igual, é claro, mas alguém com quem você tenha afinidade, que lhe traga segurança no olhar, que responda as perguntas da maneira que você gostaria de ouvir. No fundo, é assim que funcionam os processos de seleção de muitas empresas, como um grande liquidificador que pasteuriza as pessoas e nivela os profissionais por uma média, formando uma imensa massa de tons pastel nas equipes.

 

Imagino que alguém possa discordar do início do texto. Então, para esse leitor descontente com o rumo da prosa, peço imaginar a seguinte situação: um fila de pessoas para serem entrevistadas por você. Todas vestidas de forma muito parecida (homens de terno e mulheres de tailleur), com seus currículos parecidos (Pós-graduação, MBAs, línguas etc.). No meio das pessoas, apenas uma de piercing no nariz. Posso apostar um almoço, sem medo de perder, que dez entre dez entrevistadores (de RH a gestor) sequer considerariam o candidato em questão. Não estou aqui defendendo que se deva usar piercing em entrevista de emprego. O “piercing” pode aparecer de várias formas: na postura do candidato, no seu discurso, no jeito de falar, de andar, na forma com que responde as perguntas. O importante é entender que, na maioria das vezes, o que salta aos olhos como diferente pode ser uma barreira para, de fato, fazer uma avaliação correta do candidato.
Já fui entrevistado muitas vezes e já fiz várias entrevistas com candidatos. E, em cada uma dessas posições, sempre ficou claro o que o entrevistador queria ouvir e o que o entrevistado fazia questão de dizer, achando que eu queria ouvir aquele tipo de resposta. Geralmente pasteurizada e enlatada. Não agüento mais gente dizendo que é proativa, que gosta de trabalhar em equipe e que tem como maior defeito ser perfeccionista (assim como no vídeo do estagiário do post anterior). Mas basta o candidato chamar a atenção para alguma característica que não está no “perfil ideal” do manual do candidato que é logo rotulado e reprovado. Se é autoconfiante demais, vira arrogante. Se é da geração Y e responde as perguntas de forma despojada, é imaturo. Se está vestido de forma diferente do convencional, é extravagante ou até maluco, quando não rotulam de coisa pior. 

 

O engraçado é que, ao mesmo tempo em que as seleções seguem esses padrões de atendimento, os discursos das empresas vão no sentido inverso. Querem sempre gente diferente, talentos do mercado, antenados com as novas gerações e tecnologias, focados na inovação etc., etc. Não sou especialista em Recursos Humanos, muito menos em gestão de equipes, mas acho que os dois conceitos não se encaixam. Melhor, estão em lados totalmente opostos da mesa. Como imaginar alguém inovador vestido em tons pastel? Para mim, piercing no nariz devia ser quesito obrigatório no bom candidato. Alguém que rompesse as regras, que não se conforma que o “status quo” preponderante.
Mas o que acontece é que as pessoas tendem a contratar quem mais se parece com elas mesmas. Repetindo mais do mesmo. Mantendo as coisas no mesmo lugar. Quando o segredo de formar uma boa equipe, na minha opinião, está justamente em selecionar pessoas diferentes, que se complementem e não que repitam o mesmo. Pessoas que pensem diferente, de você e do resto da equipe. Que tenham espírito, que sejam arrojadas, que questionem ordens, que critiquem a posição do chefe. Mas isso, é claro, se você é um “líder/chefe” que saiba administrar essas pessoas, formando um verdadeiro time, com peças que se completam. E não uma massa homogênea e sem vida. O problema é que nem sempre quem chega a um cargo de chefia tem capacidade e coragem para gerenciar uma equipe assim. Muitos gestores nem desejam uma equipe assim, por acharem que dá mais trabalho de administrar. Às vezes, quando conseguem contratar alguém mais arrojado, questionador e inovador, acabam cortando tanto suas asas que eles terminam sem voar.
E aí o mais fácil é continuar contratando o “candidato ideal”. A única vantagem é que na época de Natal não vão faltar vacas para os presépios. 


FONTE: http://oglobo.globo.com/blogs/nahoradocafezinho/posts/2011/06/28/vacas-de-presepio-ou-touros-indomaveis-388904.asp







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