quinta-feira, 28 de julho de 2011

Luzes da enfermidade

Costumo associar aquelas fotos da Terra em que o planeta aparece recoberto por pequenos pontos de luz – cujos maiores focos representam as regiões mais “desenvolvidas” do mundo, principalmente no hemisfério norte – a um corpo enfermo; algo correspondente a uma imagem feita por microscópio de uma célula recoberta por bactérias ou infectada por algum tipo de vírus, pois, como se sabe, o estado natural do planeta não comporta dispositivos de iluminação que não o sol.

Fico imaginando, como já se especula há tempos, até quando o mundo suportará o uso abusivo que a humanidade faz de seus recursos e todos os dejetos, naturais e sintéticos, que são produzidos e retornados à natureza diariamente. Por vezes, meu desânimo se intensifica a tal ponto que chego a pensar se seria correto ter filhos, sujeitando-os à falta de abastecimento de água e comida, temperaturas insuportáveis e outros possíveis problemas que venham a aparecer no futuro. Quando recobro a consciência, no entanto, logo desconsidero a possibilidade, pois nada, para mim, pode ser melhor do que ter filhos. E, então, ponho-me a pensar – numa dimensão um tanto onírica, é verdade – em possíveis soluções para mudar o curso da inconsequente relação que as sociedades vêm mantendo com seu próprio planeta.

De certo, não existe uma única resolução para o problema, o qual, acredito, demanda como contrapartida diversas ações de cunho prático, verdadeiramente estruturais, que possam alterar e recuperar o atual cenário. Penso haver, contudo, um ponto inicial de mudança, de ordem conceitual, que poderia contribuir para essa tão esperada revolução. Tratar-se-ia de retirar o status de verdade absoluta da ideia de que as sociedades precisam crescer indefinidamente, como se, uma dia, fossem chegar a um ponto ótimo, ou algo parecido.

Isso porque tal concepção gera uma série de efeitos sociais, econômicos e ambientais, além de interpretações errôneas e diretrizes equivocadas – quando não tendenciosas – que, a meu ver, são prejudiciais ao planeta Terra e, por consequência, à humanidade. Um deles se expressa na forma como se avalia a situação de cada país. Geralmente, os mais bem ranqueados e que, com isso, adquirem mais prestígio internacional, são os países que apresentam os maiores níveis de crescimento econômico e atividade industrial, como vem acontecendo com os “neo Tigres Asiáticos”, os BRICs (Brasil, Rússia, índia e China, em especial esta última).

Não obstante a crescente relevância que tais nações vêm obtendo no cenário internacional – obviamente em função dos interesses comerciais que os países mais desenvolvidos têm sobre eles –, internamente, velhos problemas se somam a novas mazelas. Se tomarmos a China como exemplo, veremos que o país nunca poluiu tanto, que sua população é vítima de práticas de dumping social e que o velho cerceamento ideológico continua a pleno vapor. Na índia, a miséria subsiste escancaradamente; a Rússia mantém despudoradamente parte de sua cortina de ferro sobre a Europa Oriental, enquanto o Brasil não consegue universalizar sua rede de saneamento básico, não controla o desmatamento, prepara novos projetos hidrelétricos que podem comprometer sua bacia hidrográfica e aumenta seus níveis de poluição.

É com base nisso que me pergunto: por que a cega obstinação pelo crescimento, mesmo com a falta de recursos que já se observa em escala mundial? Por que não se consideram campanhas de conscientização da população para evitar novas explosões demográficas? Qual a finalidade de avaliar um país via PIB e evolução industrial, em vez de dar maior relevância a aspectos que indiquem verdadeira qualidade de vida em termos coletivos? Não seria mais lógico considerar a situação atual das sociedades do que apostar na promessa de um estágio futuro em que todos serão ricos e felizes? Sem dúvida que sim. Porém, é interessante para os poucos que estão no topo da pirâmide manter as massas em seu lugar, prometendo-lhes um lugar ao céu, desde que sigam fazendo o trabalho braçal (a troco de quase nada).

O mundo utópico, em que todos têm dinheiro – como se o capitalismo fosse viável com o perfeito equilíbrio econômico-social (!!) –, onde não há miséria, guerras, drogas, etc., é a melhor justificativa para a manutenção de governos intervencionistas, que mantém as rédeas do povo sob a justificativa de ser seu maior protetor contra o “mal que assola o mundo” (daí a permanente invenção e reciclagem do Outro ameaçador, como o comunismo russo e Osamas Bin Ladens). Paralelamente, enquanto se pagam impostos exorbitantes que não retornam na forma de serviços públicos de qualidade, e se aceita a violência do aparelho repressor do Estado, dando pancadas em favelados e em servidores que protestam por melhores salários, políticos fazem seus negócios com o empresariado, enriquecem e mantêm tudo como está, porque, afinal, estão prosperando!

E assim prossegue a vida na Terra, num esforço gradativo para acabar com si mesma; visão, sem dúvida, pessimista, mas minimamente realista. Freud foi mesmo genial ao falar em pulsão de morte…










FONTE: http://www.consciencia.net/luzes-da-enfermidade/

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