segunda-feira, 25 de julho de 2011

Hesse diante de Buda


          Sempre que posso, volto a alguns escritores que, tendo marcado minha juventude, nunca mais voltei a ler. Escritores que, se eu não fizer
um forte esforço para arrancá-los de meu passado, perderia para sempre. Um dos mais importantes deles, não só porque marcou minha adolescência, mas também porque ajudou a talhar minha maturidade, é o alemão Hermann Hesse (1877-1962).

          Há algumas semanas, em Londres, visitei, no Museu Britânico, as salas dedicadas ao Oriente, com suas espantosas representações de Buda. Voltei para casa decidido a reler Sidarta, o romance que Hermann Hesse publicou em 1922.
          Enquanto Mário e Oswald agitavam o Brasil com a semana de arte moderna, Hesse publicava uma ficção baseada na juventude de Buda. A volta à rotina, até agora, não me permitiu reler o livro, mas ele não me escapará. Está aqui, ao meu lado, à espera.

          Para compensar o livro que não reli, folheei, ontem à noite, uma antologia de pensamentos de Hesse publicada, em 1971. Como desconheço o alemão, recorri a uma velha tradução feita para a Record por Bélchior Cornélio da Silva.
           Nela esbarrei em um pensamento que me deteve. Como uma muralha erguida no meio de uma estrada, ele me paralisou. Escreve Hesse: "Não é comunicável a sabedoria. A sabedoria que um sábio tenta comunicar soa, antes, como loucura".

          Encontrei, em breves duas frases, uma síntese possível do destino do leitor. De sua solidão radical _ assim como ninguém pode morrer em nosso lugar, ninguém também pode escrever em nosso lugar. De sua
impotência quando luta para resumir _ em uma oficina, uma resenha, ou
para um amigo _ uma ficção, ou um poema, que acabou de ler.
          Essas experiências desmentem a idéia comum de que a literatura é um instrumento de comunicação. Confirmam, ao contrário, que a literatura não é comunicável. Não: ela não faz parte da grande malha dos meios de comunicação, como a TV, a imprensa, o rádio, a internet.
          A literatura é só um furo rasgado nesse grande malha. Está conectada com o vazio. Não remete a fatos, ou a discursos, ou a comunicados, remete a algo que os ultrapassa e que, a rigor, nela não está, não pode estar. Ou experimentamos (lemos), ou não chegamos. E só.

          Sempre me espanto com os que estudam literatura com disciplina e aplicação. Sempre me assombro com os "bons escritores" _ isto é, os literatos. A literatura nos remetes a zonas impensáveis, e às vezes insuportáveis. Joga-nos em regiões de indisciplina e de desconforto que só com muito esforço conseguimos aceitar. Mas aceitar não é o mesmo que ler.
          A respeito dessa condição, vem em meu socorro outra idéia de Hesse: "Depois da fome de viver talvez não tenha o homem outra
mais forte do que a fome de esquecer". A literatura nos leva a "ver demais", e essa é uma maneira de cegar. Como nos sonhos, que ao acordar logo tratamos de editar e censurar, também com ficções e poemas, ou esquecemos um pouco do choque que nos causaram, ou fica dificil voltar a viver.

          É justamente dessa conexão com o insuportável que a literatura se alimenta. É dela que retira sua potência e sua condição inconfundível. Livros não são substituíveis. Seria um absurdo dizer: "Tanto faz ler A metamorfose, como o Grande sertão, dá no mesmo, pois ambos são grandes livros". Sim, ambos são relatos fabulosos, mas cada um nos empurra em uma direção.

          Avanço mais um pouco nos pensamento de Hesse e chego a um
terceiro, que me ajuda também. Diz ele: "Quando um homem começa a falar, até mesmo as coisas mais simples se tornam complicadas e ininteligíveis". Triste ilusão a dos que acreditam que a palavra é educativa. De que ela é um selo que recobre e fixa um mundo desgovernado. De que ela forma cidadãos exemplares.
          Ao contrário, a palavra é um rombo, que não se pode cerzir. Ao tentar reduzir o indizível a uma palavra, tudo o que fazemos é meter as mãos em seu bojo escuro. Temos, então, contato com a ignorância profunda que dela escorre. As palavras tentam, mas não conseguem. Sim: elas nos fornecem pistas, vestígios, esboços, mas não soluções. Por isso, como sugere Hesse, as palavras enlouquecem.

          Talvez por isso ainda Hesse tenha escrito seu Sidarta, tenha tomado o Buda como seu protagonista. Não o Buda disciplinado e doce das religiões, mas aquela figura enigmática e ardente que, só porque denuncia a precariedade de tudo, só porque desmascara nossa impotência e fracasso, se tornou um sábio.
          Estranho sábio, não pelo que diz, mas pelo que não diz. Não pelo que é, mas pelo que não é. Se esquecermos das interpretações religiosas e o encararmos, como encarei um grande Buda em uma sala do Museu Britânico, veremos que ele não passa de uma pergunta. Uma pergunta que nos faz viver.

          Lembro que, em uma das salas do museu, encontrei uma imensa imagem do Buda que sorri. Exatamente igual a uma imagem minúscula que ganhei, como talismã, de minha amiga Carmen Da Poian. Eu o trago sempre a meu lado. Nas viagens, vai em minha bagagem de mão. Tenho-o sempre por perto. 
          Às vezes, por conta desse pequeno Buda, me perguntam se me converti ao budismo. Apresso-me a afirmar que não. Quando me pedem que explique, então, o que ele me significa, afirmo que não sei. É, como disse minha amiga, um talismã _ isto é, um objeto que se basta.
          Entendi que seus poderes ultrapassam aquilo que ele é. Sua potência não cabe em significados, tampouco seus poderes são traduzíveis para a linguagem humana. É uma espécie de grande abismo, que abre um rombo para outras dimensões.
          Sua simples presença em meu bolso me incita a ver as coisas de outra maneira e a desconfiar do homem que sou. Ela me desloca. Ela me empurra. Rasga uma ferida em meu corpo. É assim que imagino a proteção que me dá. Essa é minha ficção.
          Um talismã abre caminhos. Ficções fazem o mesmo. Nos dois casos, somos atravessados pelo desassossego. Chego ainda a uma frase de Hermann Hesse: "Só se está intranquilo enquanto se tem esperanças".


FONTE: http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/posts/2011/07/06/hesse-diante-de-buda-390664.asp

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