sábado, 11 de junho de 2011

Pasárgada

O mundo dos políticos brasileiros é mesmo fantástico; quase que uma realidade paralela, onde todos são amigos do rei, com o perdão do poeta.

É difícil acreditar que desse universo de barganha e privilégios poderiam, um dia, participar todos os cidadãos. Afinal, a riqueza, o poder e a exclusividade dependem de um resto; exigem um Outro, que fica de fora, para terem sentido.

Tal suposição, porém, não seria inconcebível apenas por razões semiológicas. Há de se considerar também a inviabilidade de um país onde reine a impunidade; onde desvios e fraudes milionários que afetam integralmente a sociedade sejam simplesmente arquivados; em que mesmo crimes hediondos – estes que, no plano dos meros mortais, resultam, geralmente, em pobres encarcerados em penitenciárias-escolas-do-crime – também não sejam punidos.

Seria inconcebível um mundo no qual, seja pela complacência de um poder Judiciário corrupto, ou pela atuação de uma Grande Mídia comprometida, mesmo aqueles envolvidos com o tráfico de drogas, milícias, grilagem e desmatamento, preconceito racial e religioso, não fossem jamais apontados como partícipes, diretos ou indiretos, dessas práticas.

Na Pasárgada política brasileira, pune-se o “criminoso”, quando muito, com uma exoneração Midiática, espetacular. E, ainda assim, são sempre grandes as chances de retorno, com toda a pompa de direito.

Lá, nessa terra onde reina o corporativismo e tudo é feito em nome do voto, o fim mesmo da prática política inexiste ou não importa. Também de menor importância é a conduta dos engravatados – devotados servos de si mesmos –, desde que a retórica mantenha um mínimo de garbo e falsa elegância.

Com efeito, em pura artificialidade redundaria a elevação do ordinário ao nível do universo político brasileiro. Consolemo-nos conservando a dignidade severina em detrimento do simulacro potencializado, onde não há mais que o resquício da projeção da sombra. E podridão.


FONTE: http://www.consciencia.net/pasargada/

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